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Estou com câncer, e daí?
Contestador, o título desta matéria foi tirado de um diário virtual escrito por Clélia Bessa, que virou blogueira após descobrir que tinha câncer de mama
Danielle Gaspar
- Perfil: brasileira, solteira, produtora, roteirista, nem 40 nem 50 anos, mãe de uma menina-adolescente, feliz com o trabalho, amigos e família.
- Desafio: viver plenamente. Escrever. Falar fácil quando o assunto é difícil.
- Cenário: Rio de Janeiro, véspera de Carnaval.
- Cena 01:Um e-mail e nada. Clélia deve estar ocupada. A jornalista é insistente afinal, os prazos... Pensa melhor e resolve ligar direto no celular. Alô? É ela, Clélia. Foi nesta hora que percebeu o poder de seus relatos virtuais. Depois de devorar os mais de 60 posts já escritos pela autora no blog "Estou com câncer, e daí?", sentia-se cúmplice de sua própria história. A entrevista começa, mas está longe de ser ficção.
A estreiaA doença não teve nem data nem hora para começar. “Tudo foi muito rápido. Quando me dei conta já estava fazendo a biópsia”, comenta. Não que tenha se descuidado. Clélia é o tipo de mulher com certa disciplina. Foi durante os exames de rotina que veio a suspeita. Será? Consulta com mastologista. É preciso aprofundar o caso. Segue para ressonância e mais exames. Espera, espera e espera. Ter paciência foi a grande dificuldade. “Não dava pra pensar em mais nada, nem no chopinho do happy hour, absolutamente nada. É praticamente impossível falar besteira numa hora em que se espera um diagnóstico como este”, relembra. Veio a confirmação. “P... m*rda, por que comigo?”, desabafa no blog.
Dias depoisEra preciso contar para os amigos mais próximos. E ter uma conversa franca com a filha. Num final de tarde, foi pegá-la na escola e entre uma cervejinha e um suco de laranja, veio a revelação. “A mamãe está com câncer de mama, vai acontecer um monte de coisa na nossa vida, vai cair meu cabelo, às vezes vou ficar de mau humor, depois vou ter que operar e tirar a mama, algumas pessoas não sobrevivem a esta doença, mas a mamãe vai ficar boa”, ufa! Aproveitou a onda da novela das 8 e contou à filha que a protagonista-vilã – Patrícia Pillar – já tinha bravamente passado por esta na vida real.
A origem do blogNada é tão simples quanto parece. Se, por um lado, estava lidando com objetividade na condução do seu tratamento, por outro tentou abraçar o mundo. Logo nas primeiras semanas, já tinha ‘googleado’ tudo sobre o assunto na Internet. Participou da caminhada em combate ao câncer, entrou em contato com associações e chegou até pensar em engatar uma campanha sobre o câncer de mama. Consumia tudo, em busca de um caminho que pudesse te ajudar. Até que a inspiração veio de um livro de auto-ajuda “Câncer – e agora?”, de Kriss Carr. Devorou-o em menos de 24 horas. “Lá encontrei uma maneira de rir de mim mesma. Quando terminei a última página, pensei: é isso que quero fazer. Quero escrever e compartilhar meu mundo com pessoas que vivem o mesmo momento”, revela.
IbopeLonge de ser uma sentença de morte, Clélia rompeu estereótipos ao encarar o câncer de mama com naturalidade. Isto não quer dizer que evitou os monstros que assombram a notícia. Permite-se a chorar sempre que seu coração fala mais alto. Em todos os seus posts é possível perceber a magia. Nada de doente coitadinha, deprimida e chorona. É no dia-a-dia que tira o proveito do que melhor ele oferece. Com uma linguagem franca e bem despojada (dessas exclusivamente permitidas no mundo virtual), delicia os internautas com sua originalidade. Os comentários já vêm de longe. Austrália, Peru e Alemanha só para citar alguns países. “Estou impressionada com a força do blog. Ele te joga no mundo”, comenta.
Big Brother sem câmerasA atualização é quase diária. E Clélia já vai contabilizando o número de seguidores. Algumas dezenas de pessoas já acompanham seu diário rotineiramente. Difícil mesmo é deixar de se tornar membro. Devo confessar: eu mesma, logo após a entrevista, não tive dúvidas em me associar. Clélia tem carisma e muita originalidade. Aborda as dificuldades com um frescor admirável. Lá é possível a leitora vibrar apaixonadamente quando a autora teve (sem sequer imaginar) sua primeira noite com um paquera semanas após o diagnóstico e redescobriu-se mulher, feminina e sexy.
Próximos capítulosUm dia antes da retirada da mama, relatou em suas páginas virtuais momentos especiais. Fez uma lista que incluía um pouco de tudo: topless na praia, olhar demoradamente no espelho e até sessão de fotos do colo nu com as amigas. Aliás, sua fiel escudeira, superamiga e sócia da produtora Raccord Produções, Rosane Svartman, já até cogitou a possibilidade de sua história virar roteiro. Clélia desconversa, prefere dar um passo de cada vez. A exposição não a incomoda. “Costumo dizer que todo mundo tem meu celular, mas poucos sabem o telefone da minha casa”, brinca.
Em pazClélia não pensa em parar, pelo menos por enquanto. Planeja blogar até colocar a prótese, ainda sem data marcada. Aliás, comprar uma temporária foi sua principal missão após o Carnaval. Trata-se de uma visão bem-humorada sobre os tamanhos e contratempos de uma compra nada convencional. “Definitivamente, o câncer fez bem para mim”, revela Clélia, surpreendendo mais uma vez. A vulnerabilidade nos faz lembrar que não precisamos necessariamente estar doentes para encarar a morte.
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